22 junho 2026

Depois, azeda

Você já foi o "quase" de alguém? Um eterno "talvez" que não consegue, por mais que tente, tornar-se uma escolha definitiva. E aí fica aquele gosto meio amargo de tudo que poderia ter sido, de tudo que poderia ser dito, de tudo que poderia ser vivido... Mas só na imaginação. Já se sentiu assim?

Eu já... Algumas vezes. Até hoje ainda me permito ser – até certo ponto. Em todas elas, foi difícil entender o porquê da dúvida. Não só pelo apego e pela forma como o outro te faz sentir, mas, também – e inclusive –, porque a escolha é sempre muito clara, só que, de tanto levantar hipóteses, elas começam a se tornar realidade – ainda que nunca tenham sido. Isso soa bem confuso, certo? E ser o "quase" é mais ainda porque você sabe – sempre sabe – que toda aquela "encenação" cotidiana não passa de uma eterna espera.

Reparou que usei muitas aspas até aqui? E nem foi proposital, viu? Mas é que ser o "quase" de alguém é exatamente isto: se tornar aberta a interpretações. E estas, meu bem, raramente são positivas.

Certo dia, chorando as pitangas comigo mesma e rolando o feed em busca de qualquer coisa pra me distrair, li uma frase que falava mais ou menos assim: aquele que reconhece o seu valor e sabe o quanto você é valioso, por mais que esteja vivendo a pior fase da vida, não vai te deixar em dúvida. E sabe o por quê? Porque quem quer – com vontade, desejo e disposição –, dá um jeito.

E já ouvi falar que esse papo de "quem quer, dá um jeito" é furada, mas não consigo concordar. A verdade é essa, doa a quem doer. Ponto. E, aqui, me uso como exemplo: não sou a pessoa mais disposta do mundo quando se tratam de coisas banais – só deixo estar, sabe? –, porém, quando quero muito, permito-me ser ridícula a ponto do outro entender claramente os sinais. 

Mas, veja bem, não estou falando sobre se deixar de lado. Não, isso nunca! Todo mundo pode – e vai, confia – se curar tentando de novo, ainda que nem sempre pareça o momento mais adequado. E se permitir ser ridículo pra deixar claro seu posicionamento é a coisa mais sincera e gentil que você pode fazer por si mesmo. 

O outro? Bom... Aí é com ele. Pra mim, o que importa é me permitir; para o outro, só ele dirá o que realmente vale seu tempo.

Talvez, neste ponto, então você me pergunte: mas se o outro é só o outro, ele tem direito a tornar você um "quase", certo? Errado. Responsabilidade afetiva não diz respeito a um público restrito. Toda e qualquer pessoa que passa pela sua vida tem direito a saber e entender o papel que ela ocupa ou pode ocupar. E quando você abre brechas para a dúvida, esse papel se torna confuso, estranho, não encaixa. A pessoa se torna um limbo na sua vida, e você se torna um limbo pra ela. 

A verdade, nua e crua, é quem ninguém quer ser um "talvez" para o outro. Ninguém quer ser o "pode ser", "vamos ver", "quem sabe", "talvez depois" ou "quando eu me sentir bem comigo mesmo" de alguém. A gente quer o "quero", "posso", "vou" ou "você me ajuda a ser eu mesmo". A gente quer ser amado em voz alta, desejado em letras garrafais, procurado nas entrelinhas, visto do outro lado da rua com um sorriso de canto a canto. 

Ninguém quer ficar para o depois. 

Depois, azeda. Perde o gosto. 

A gente quer o agora.

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